Crítica: Velvet Buzzsaw (2019) – Victor Mendonça

Victor Mendonça, em 18/02/2019

 

A ideia de “Velvet Buzzsaw” é sensacional. O filme pretende, por meio da sátira e das analogias do cinema de horror, fazer uma análise crítica das relações de poder e ganância nos bastidores do mundo das artes plásticas. Infelizmente, a ousadia do cineasta Dan Gilroy (do ótimo “O Abutre“, também protagonizado por Jake Gyllenhaal) acaba ficando em uma linha tênue do que poderia ser uma obra-prima, mas se revela um filme confuso.

 

Quando o mercado da arte colide diretamente com o mercado do comércio, artistas e investidores milionários encontram-se em um duro embate financeiro que pode sacrificar muito mais do que suas carreiras.

 

Velvet Buzzsaw” fica longe de ser um filme de terror comum, o que não chega a ser algo positivo, visto os problemas que serão apontados adiante, mas não deixa de causar curiosidade por isso. Trata-se de uma obra bastante iluminada, por exemplo, e com uma paleta de cores diversificada. Não que o cineasta não caia em chavões vez ou outra, especialmente na segunda metade da projeção.

 

Dan Gilroy começa analisando, tanto como diretor quanto como roteirista, a natureza maléfica do ego e do poder de seus personagens. Com seus diálogos, revela duras críticas a cada um deles. Desde o início, ele, por meio de artifícios de câmera e da trilha sonora que sublinham situações aparententemente corriqueiras no universo daquelas figuras, já insinua um clima de tensão e suspense, misturados com medo. Isto acaba sendo frustrante, porque o espectador fica na expectativa de um grande clímax que demora a chegar. Sem contar que estes momentos parecem mais um exercício para ele mostrar suas habilidades como cineasta do que algo realmente relevante à narrativa, tornando o filme maçante ao nos lembrar sempre de que estamos assistindo a algo ficcional. O diretor também demonstra várias dificuldades em manter o ritmo da narativa e, como roteirista, falha no tom obtuso do desenrolar do enredo.

 

O elenco, repleto de nomes de peso como Toni Colette e John Malkovich, faz o que pode com personagens que osciliam entre o humor seco, a crítica inteligente e a total monotonia. Quem se destaca é Jake Gyllenhaal, que confere um tom afetado à sua composição sem cair em caricaturas, e cria um personagem cativante mesmo com muitos defeitos.

 

O grande problema do longa-metragem é não abraçar por completo a sua natureza de terror satírico, como bem fez Sam Raimi em obras como “Arraste-me Para o Inferno” e clássicos de menor orçamento, como “Uma Noite Alucinante 2” e “A Morte do Demônio“. Gilroy tenta ser mais profundo do que as obras supracitadas, sem perceber que a própria natureza metafórica do gênero horror já seria capaz de conferir uma complexidade maior à análise proposta, como Jordan Peele fez com o racismo no excelente “Corra!“, que chegou a faturar o Oscar de Melhor Roteiro Original e a concorrer na categoria principal na premiação da Academia no início de 2018.

 

Apesar dos vários erros, “Velvet Buzzsaw” deixa sua mensagem, em um mundo no qual a arte se tornou comércio e o valor financeiro do produto revela-se mais importante do que o processo criativo e a qualidade da obra.

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