Crítica: Poderia me Perdoar? (2018) – Victor Mendonça

Victor Mendonça, em 19/02/2019

 

Baseado na vida da escritora Lee Israel, “Poderia me Perdoar?” é um filme limitado, de ritmo por vezes arrastado e que não apresenta nenhuma grande ambição a não ser a de fazer um estudo aprofundado da protagonista. Felizmente, ele se sai muito bem neste propósito. Grande parte do mérito vem do desempenho de Melissa McCarthy, atriz mais conhecida como comediante (à exemplo de “A Espiã que Sabia de Menos“, “Missão Madrinha de Casamento” e “Caça Fantasmas“) e que aqui mostra todo o seu potencial dramático em um papel sério.

 

Passando por problemas financeiros, a jornalista Lee Israel decide forjar e vender cartas de personalidades já falecidas, um negócio criminoso que dá muito certo. Quando as primeiras suspeitas começam, para não parar de lucrar, ela modifica o esquema e passa a roubar os textos originais de arquivos e bibliotecas.

 

Melissa McCarthy está muito bem como uma mulher talentosa, mas que perdeu o emprego e as perspectivas de carreira à medida que envelhecia, revelando-se profundamente frustrada consigo mesma e com baixa autoestima. Dona de uma personalidade forte, Lee é uma mulher solitária que “gosta mais de gatos que de pessoas.” Ela é encarnada por McCarthy sempre com uma postura desconfortável, distante e pouco emotiva. Apesar disto, a atriz não cai na armadilha de torná-la uma personagem puramente decadente, amargurada e unidimensional . Para evitar que isso aconteça, ela aproveita-se do sarcasmo e de algumas tiradas espirituosas do roteiro.

 

Contudo, o que há de mais impressionante na performance de Melissa McCarthy é a maneira como ela consegue despertar empatia por uma personagem antipática e mesmo inescrupulosa. Isso porque, graças ao trabalho da atriz, entendemos de onde tudo aquilo veio, da luta (mesmo com fraquezas), da depressão e do sentimento de frustração.

 

A cineasta Marielle Heller faz um trabalho sensível e realista ao explorar a solidão e a melancolia da personagem. É interessante, por exemplo, como as livrarias se revelam lugares incômodos, com muitos livros e poucas pessoas. Além disso, a fotografia e a trilha sonora constroem um tom de agorafobia que casa muito bem com a composição de Melissa McCarthy.

 

Vale destacar positivamente a relação da protagonista com o amigo interpretado pelo carismático Richard E. Grant, ambos indicados ao Oscar pelo trabalho neste filme. Grant sabe lidar com os conflitos do personagem, que apresentam-se muito similares aos de Lee, tanto na forma como se apresentam quanto na maneira como ambos lidam com eles, utilizando-se, por vezes, do sarcasmo. Apesar da tristeza, há um tom de ternura e afeto que beneficia o resultado final do longa-metragem.

 

É uma pena, portanto, que a produção não tenha grandes ambições e não vá muito além do estudo de sua protagonista. Desta forma, Melissa McCarthy revela-se melhor do que a obra como um todo. “Poderia me Perdoar?” é um filme unicamente para que entendamos a personalidade de Lee Israel, mas a sensação final é a de que isto é pouco para que justifique seu sucesso como obra cinematográfica.

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