Crítica: Green Book: O Guia (2018) – Victor Mendonça

Victor Mendonça, em 17/02/2019

 

Green Book – O Guia” revelou-se um grande sucesso na temporada de premiações, tornando-se um dos maiores vencedores do Globo de Ouro deste ano (ao lado do péssimo “Bohemian Rhapsody“, cujo alarde recebido é incompreensível). Ele também concorre em importantes categorias no Oscar 2019, o que inclui Melhor Filme. Porém, esta investida em comédias dramáticas do cineasta Peter Farelly (de comédias besteirol como “Debi & Lóide – Dois Idiotas em Apuros” e “Quem Vai Ficar com Mary?” revela-se obra muito menos ambiciosa do que os seus concorrentes ao principal prêmio da Academia. Ainda assim, ela conta com excelentes interpretações de Viggo Mortensen e Mahershala Ali.

 

1962. Tony Lip (Viggo Mortensen), um dos maiores fanfarrões de Nova York, precisa de trabalho após sua discoteca, o Copacabana, fechar as portas. Ele conhece Don (Mahershala Ali), um pianista negro que deseja Lip em sua turnê. Enquanto os dois se chocam no início, um vínculo finalmente cresce à medida que eles viajam.

 

Green Book – O Guia” transcorre em um ritmo agradável, com uma estrutura esquemática e uma narrativa simples, embora tecnicamente bem realizada. A inexperiência de Farelly, que também assina o roteiro junto a Nick Vallelonga, com produções que tenham teor mais sério é sentida ao ver que vários conflitos aparecem amenizados, principalmente no que tange à questão racial, mas são os diálogos espertos e a excelente dinâmica entre os protagonistas, bem como suas impecáveis composições individuais que tornam esta uma obra digna de apreciação.

 

Don serve como uma espécie de mentor para Tony, que Viggo Mortensen constrói como um homem bruto, inicialmente preconceituoso, que aos poucos vai se tornando mais empático e terno, mesmo sem perder, por completo, suas características de rudicidade. Há uma relação de troca e afeto entre ambos, o que faz, inclusive, com que Tony aprimore sua relação com a esposa (Linda Cardellini, eficiente num papel menor), mesmo que à distância. O fato de somente após a turnê ele conhecer em profundidade as belezas dos Estados Unidos, seu país de origem, serve como metáfora para a maneira como o protagonista lidava com as relações interpessoais e como ele passa a encará-las durante o contato com Don.

 

Enquanto isso, Mahershala Ali compõe um homem culto e de postura sempre elegante e sofisticada, que apesar de empático não hesita em ter uma honestidade desconcertante toda vez que julga necessário. Ainda assim, seu personagem é vítima do racismo, que no filme aparece de maneiras explícita, velada ou mesmo agressiva. A obra faz pensar ao constatarmos que o preconceito étnico estutural inerente à nossa sociedade não poupa nem mesmo um músico talentoso e com doutorado, e muitas vezes vem mesmo de seus admiradores. Neste sentido, a performance de Ali é hábil ao sugerir se ao menos parte dessas elegância e sofisticação não seriam um escudo para amenizar os olhares racistas que vêm de todos os lados.

 

É lamentável, portanto, que sempre que o filme pareça se aprofundar na questão do preconceito étnico – e isto acontece várias vezes ao longo da projeção – ele retroceda e não abrace a análise de forma contundente. Assim, “Green Book – O Guia” perde a oportunidade de se revelar uma obra com maior profundidade.

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