Crítica: A Nova Cinderela (2004) – Victor Mendonça

Victor Mendonça, em 11/03/2019

 

Em determinado momento de “A Nova Cinderela“, a protagonista, interpretada por Hilary Duff, vira-se para sua “fada-madrinha” (Regina King, que neste ano acaba de ganhar o Oscar por “Se a Rua Beale Falasse“) e diz: “Você tem mesmo o dom de pegar uma coisa simples e transformá-la em algo especial.” Pois o mesmo pode ser dito do trabalho da equipe responsável por este longa-metragem. “A Nova Cinderela” conta um velho conto de fadas que constantemente está sendo repaginado sob uma roupagem inovadora para a época (o longínquo ano de 2004), mas não escapa de clichês dos filmes adolescentes. Entretanto, trata-se de obra encantadora.

 

Sam Montgomery (Hilary Duff) é uma jovem estudante do ensino médio que vive com sua madrasta Fiona (Jennifer Coolidge) e as filhas dela, que a tratam da pior maneira possível. Sam leva uma vida sem grandes agitações e tem planos de cursar a Universidade de Princeton. Sua vida muda quando ela conhece, por meio da internet, seu príncipe encantado. Porém, logo Sam descobre que ele é na verdade Austin Ames (Chad Michael Murray), um garoto popular que é também jogador de futebol americano do time de sua escola. Temendo ser rejeitada por Austin, ela passa a tentar despistá-lo de todas as formas, tentando manter em segredo a identidade da garota com quem ele conversou através da internet.

 

A Nova Cinderela“, além de explorar o preconceito social (neste caso, em um viés voltado ao universo teen) presente na história original é, acima de tudo, obra sobre identidade e autenticidade. Tanto Austin quanto Sam não se sentem confortáveis com a imagem que projetam, mas tem medo de não serem aceitos como são. E é baseado nessas duas premissas da identidade e liberdade, somadas à coragem, que o filme se agiganta no ato final. As situações vividas pelos personagens fazem lembrar um conceito budista denominado “Hosshaku Kempon”, que significa descartar o transitório e revelar o verdadeiro – a essência, a identidade, o ponto primordial. É aí que está a maior beleza da obra.

 

O elenco ajuda. Hilary Duff e Chad Michael Murray, apesar de não serem modelos como intérpretes, parecem talhados para os papéis centrais e demonstram uma bela sintonia juntos. Regina King está muito bem em versão atualizada da fada-madrinha, assim como todo o elenco de coadjuvantes se encaixa como uma luva em seus papéis. Contudo, a atriz que se destaca é Jennifer Coolidge. Conhecida por comédias ao estilo besteirol (como a cinessérie “American Pie“), ela deita e rola com o tom caricatural que confere à madrasta espalhafatosa e fútil, o que a faz arrancar diversas gargalhadas do público.

 

A direção de Mark Rosman e o roteiro de Leigh Dunlap sabem bem como mexer com as emoções do público, mostrando-se maniqueísta como todo filme é em menor ou maior grau. Aqui, o diferencial está na forma como eles utilizam-se destes artifícios, não deixando o público perceber que está sendo manipulado. A obra oscila entre o humor e momentos emotivos e/ou românticos. Nem mesmo a quantidade exacerbada de clichês e estereótipos prejudica o resultado final, pois são eles os responsáveis por dar molho à comédia romântica e envolver a plateia. Assim, está tudo tão no seu lugar, e com toques de inteligência, que fica difícil não gostar do filme.

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