Crítica: A Esposa (2017) – Victor Mendonça

Victor Mendonça, em 22/02/2019

 

A Esposa” é um filme sobre o machismo nas relações conjugais e no mercado literário. Afinal, na época em que parte do longa-metragem se passa, o poder desta área estava diretamente ligado aos homens, sejam eles escritores, editores ou críticos. Apesar de contar com direção e roteiro burocráticos e superficiais, o moderado sucesso que a obra consegue atingir artisticamente se deve a Glenn Close. A performance da atriz consegue extrair, às vezes simplesmente com um simples olhar, uma série de sentimentos que nem sempre estão mostrados explicitamente no filme, levando a protagonista a um alto nível de complexidade.

 

Joan Castleman (Glenn Close) é casada com um homem controlador e que não sabe como cuidar de si mesmo ou de outra pessoa. Ele é um escritor e está prestes a receber um Prêmio Nobel de literatura. Joan, que passou 40 anos ignorando seus talentos literários para valorizar a carreira do marido, decide abandoná-lo.

 

Close, que já foi indicada várias vezes ao Oscar e finalmente é a favorita para levar a estatueta devido a este longa-metragem, confere uma postura séria e crítica a Joan. O que não significa que a personagem, mesmo com personalidade forte, não sofra de uma submissão que fica evidente desde os primeiros momentos do filme.

 

Sem jamais recorrer ao overacting, Close é poderosa ao encarnar uma mulher que é relegada ao segundo plano de esposa, vivendo à sombra do marido para inflar o ego dele e manter sua boa imagem junto ao público, mas que tem força o suficiente para peitá-lo, embora estes embates jamais saiam da esfera da intimidade do casal.

 

Jonathan Pryce constrói o marido Joe como um homem narcisista e pouco empático no que tange à família. Ele chega a ser abusivo ao tentar manipular os sentimentos da esposa e ao querer fazê-la crer que ela jamais terá sucesso sem ser como a cônjuge dele, já que o filme revela uma surpresa que mostra que a dependência da relação profissional entre eles era muito mais aprofundada do que imagina-se à principio.

 

Close novamente é eficaz ao colocar Joan como uma senhora que, apesar das frustrações muito bem dissimuladas, não quer ser vista como vítima, e em diversos momentos demonstra ter discenimento para perceber como é relação dela com o marido. Joan, em várias passagens, chega a “peitar” o esposo, que aparece como um porco chauvinista, tentando manter o controle da esposa e não deixando que ela faça o mesmo com ele.

 

É uma pena, portanto, que assim como o bom “Poderia me Perdoar?“, “A Esposa” jamais escape das limitações de ser apenas um veículo para a atriz. O filme tem sérios problemas de ritmo e não se aprofunda nos dilemas éticos e morais da narrativa. Assim, perde-se a oportunidade de criar obra mais convincente.

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