Autista se forma em jornalismo, aos 22 anos, mesmo com prognóstico de que seria dependente o resto da vida.

Selma Sueli Silva

Meu filho é autista. Foi diagnosticado aos 11 anos. Passou por vários desafios, pois a sociedade ainda não convive bem com o diferente. Os prognósticos não eram os melhores: “Ele será dependente por toda a vida.” “Seu filho não sabe lidar com frustração, isso dificulta tudo.” “Prepare-se para as reprovações na escola.” “Não é e nunca será fácil.” Sem contar o olhar de piedade quando eu aparecia com olheiras pelas noites sem dormir. Ou a comparação que apontava que era muito boa sorte ter filho “normal”.

Mas eu também sou autista diagnosticada há três anos. Então, não me fixei no que me disseram alguns profissionais. Muito menos, deixei-me levar pela tristeza de ver todos se afastando de nós. A justificativa era sempre a mesma: “Não sei como ajudar, então é melhor não atrapalhar”. Desde quando uma conversa amiga atrapalha? Quantas vezes eu precisava de alguém comigo e com meu filho, somente para eu ter como ir ao banheiro? Sair não fazia mais parte de minhas possibilidades e ambições.

No início, me recomendaram um grupo de mães no Yahoo. Quando entrei e comecei a acompanhar, me desestruturei. Eram muitas conversas, muitas lamentações, muita gente sofrendo. Não dei conta. Saí depois de uma semana. Passamos, num primeiro momento, a ser eu e meu filho. Eu me afundei no estudo sobre o autismo, procurei me cercar de um bom psiquiatra e uma boa psicóloga para ele. Alguns tratamentos alternativos começavam a surgir. A rigidez de meu cérebro não me permitiu tentar. Confiava no profissional escolhido, e pronto. Com o tempo, o pai do Victor e a madrinha (minha irmã) foram entendendo mais sobre o assunto e se reaproximaram.

Minha mãe ficou perto mesmo sem entender, e não foi fácil para ela lidar comigo e com o neto. Quando estou focada posso ser pouco cuidadosa com o outro. Mas ela insistiu. Ainda bem. Mas, de praxe, éramos eu e o Victor. Meu psicólogo e a psicóloga do Victor queriam que eu fosse a shoppings com ele, andasse de ônibus, recebesse amigos em casa. Qual a parte de “eu não dou conta disso” eles não entendiam?

Aos 14 anos, Victor quis trocar de psicóloga. Já não era mais uma criança. Queria mudar de psiquiatra também. Eu tive receio. Aceitei a mudança da psicóloga com a promessa de que o psiquiatra continuasse. Victor seguiu insistindo. Ele não conseguia se sentir ele mesmo, espontâneo, e achava que eram os remédios que o aprisionavam num jeito que não era o dele. Teve fobia social, quase perdeu o ano. Era remédio para manter a concentração e controlar humor, deixando-o mais para cima. Era também remédio para controlar a euforia, para baixar os ânimos.

Lembro, ainda hoje, da voz da dentista dele me perguntando: “Selma, você tem certeza de que esses remédios estão agindo como deveriam?”. Respondi que não sabia; que relatava tudo para o médico e que era ele que decidia. Ela então argumentou: “É que ele era tão alegre, espirituoso, brincalhão. Agora está tão quieto”. Choro toda vez que me lembro desse diálogo. Não sabia o que fazer. Não podia decidir sem conhecimento técnico. Passei a procurar por mais suporte, mas a falta de informação com base científica me levaria a riscos que eu não poderia correr. Era uma vida que dependia de mim. Um valor humano que eu deveria criar para a sociedade.

Nesta época, a diretora Amália e a equipe do Colégio Padre Eustáquio impediram que eu fosse à loucura. As palavras da diretora ainda ecoam em minha mente, foram como bálsamo à época: “Falta pouco mais de um ano para ele concluir o ensino médio. O lema do Colégio é Saúde e Paz, fique tranquila para cuidar da saúde dele para que vocês tenham a paz. Nós estamos juntos. O Victor é inteligente, curioso, disciplinado, criterioso… Nós vamos conseguir”.

E conseguimos. O Victor terminou o ensino médio e passou de primeira no vestibular. Eu nem acreditei. Que mãe eu sou, gente? Tive de ligar para a faculdade e confirmar. Uma nova etapa começava em nossas vidas. Ele na faculdade, negociando sua inclusão com a coordenação, o Núcleo De Orientação Psicopedagógica, os professores. Solicitou e conseguiu ser acompanhado por uma mediadora. Não alguém que limitasse sua autonomia, mas, sim, uma intérprete educacional. Na universidade, as regras e a forma de relacionamento podem ser bem complicadas para o cérebro neurodivergente.

Pela primeira vez, Victor se sentiu parte de um grupo de amigos. Pessoas que o achavam um cara interessante e o acolheram. E meu menino ousou. Fez teatro, arteterapia, lançou o Canal Mundo Asperger no YouTube, escreveu sobre autismo, sobre filmes (uma antiga paixão) e publicou livros. Os convites para palestras sobre os mais variados assuntos começaram a chegar de todo o Brasil; Inclusão Escolar, Autismo no Feminino, Autismo em adultos, Talentos e possibilidades, Razões para desafiar a vida e muito mais.

No final de 2017, finalmente ele deixava o psiquiatra. Agora, com outro profissional, a medicação foi reavaliada e diminuída. E Victor consolidou suas ousadias. O menino que seria dependente o resto de seus dias tem um vasto currículo: é apresentador, youtuber e autor dos livros “Outro Olhar”, “Danielle, Asperger”, “Neurodivergentes” e coautor de “Dez Anos Depois”. Mantém o portal “Mundo Asperger”, com quase 26 mil seguidores.

E mais: Victor Mendonça é jornalista. A colação de grau acontece dia 27 de fevereiro, pelo UniBH. Professor e pós-doutor em Jornalismo Científico, Maurício Guilherme Silva Júnior não teve dúvidas. Desafiou o aluno a escrever não um artigo em seu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso), mas sim um livro. O livro “Neurodivergentes – Autismo na Contemporaneidade” será lançado dia 22 de março, no Simpósio Internacional sobre Educação Inclusiva, promovido pelo Mundo Asperger, com apoio do TJMG (Tribunal de Justiça de Minas Gerais) e do Grupo de Estudos da UFMG – Corpos Mistos.

Parabéns, meu filho, companheiro de profissão. Sim, jornalista, com reportagens em vários veículos de comunicação, livros publicados, viagens feitas apesar de todas as dificuldades para compartilhar vivências. Não é sobre não desistir de seus sonhos. É sobre não desistir do ser humano em sua neurodiversidade. Para mim, hoje você faz e é a notícia. Dez anos depois do diagnóstico certo com prognóstico completamente equivocado, sejam muito bem vindos ao nosso fascinante Mundo do Autismo.

1Comentário
  • Veridiana
    Postado em 17:37h, 03 março Responder

    Oi tudo bem, que orgulho de menino, já assisti várias vezes o canal de vcs, não sabia que vc era autista tbm!!Aquela frase que não pode faltar, não parece,RS. E não sabia que o prognóstico dele tinha sido assim,vcs tem algum vídeo no canal colocando.era o Vítor??

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