Autismo leve não é leve em sofrimento

Victor Mendonça

Nos estudos da Semiótica, temos um conceito muito interessante que é o do objeto imediato versus o objeto dinâmico. O objeto imediato refere-se ao fenômeno em si (que pode ser uma pessoa, como um autista conhecido, tipo eu, minha mãe Selma, Rodrigo Tramonte ou mesmo celebridades como Daryl Hannah e Susan Boyle). Já o objeto dinâmico refere-se a como aquele fenômeno (ou aquela pessoa) nos é apresentado.

Apenas tem acesso ao objeto imediato (melhor, a um recorte dele) aquele que o viu pessoalmente. No caso dessas pessoas que citei, apenas tem acesso ao objeto imediato, ou seja, ao que elas são de verdade, quem convive de perto com cada uma delas. À medida que elas são representadas de alguma forma (por meio de vídeo, posts, músicas ou papéis, por exemplo), menos nós conhecemos sobre a pessoa em si e mais sobre uma representação dela.

Entender esses conceitos complexos que tentei explicar da forma mais simplificada possível é muito importante, também, para evitar rótulos no espectro autista. É fácil, para mim, dizer que Daryl Hannah é privilegiada ou mesmo taxar que ela não teve prejuízos por ser autista – afinal, ela teve relacionamentos de alto nível e desenvolveu uma excelente e vitoriosa carreira como atriz. Mas não podemos esquecer que a construção da minha visão sobre ela é uma junção da imagem que a mídia projetou sobre a atriz e da bagagem de vida que carrego para analisar essa projeção.

Se eu fosse um espectador médio, não conheceria os relatos dela, que só não foi internada na infância porque a mãe não queria e, mesmo depois de adulta, passou por sérias complicações de saúde por causa do esgotamento social em Hollywood, enquanto tinha que camuflar tudo isso porque era o emprego e a vida dela que estavam em jogo. E olha que isso é só o que ela deixa transparecer para o público; não saberemos se ela quebra coisas ou se agride ou agride alguém, se isto não chegar até nós por causa da mídia. (No caso de outra autista famosa, Courtney Love, suas crises até vieram a público em publicações e sites especializados em fofocas e escândalos em torno de famosos, e ela foi muito criticada sem que levassem sua condição em consideração).

De acordo com entrevista que fiz, certa vez, com a doutora Raquel Guimarães Del Monde, e que corrobora o que pode ser encontrado em outras fontes de consulta, o que define a “gravidade” do espectro é o grau de independência das pessoas. O autismo leve não é leve em sofrimento. Dados apontam que o suicídio é nove vezes maior em autistas “leves” do que na população em geral, e três vezes maior do que naqueles que estão em outra “parte” do espectro.
No autismo severo, por convenções sociais, os pais têm maior liberdade de expor essas pessoas em suas manifestações violentas. Isso não significa, de forma alguma, que essas atitudes agressivas não aconteçam com o autista leve. E nem que não afetem o autista severo.

Eu e minha mãe tivemos diagnóstico tardio, ela muito mais que eu. Passamos por situações, em momentos de crise, que colocaram nossa vida em risco e também a integridade de coisas materiais – mas não poderemos, jamais, entrar em detalhes sobre isso, por causa da pressão social que nos é imposta.

Paradoxalmente, a sutileza do nosso autismo faz com que ele tenha passado despercebido até mesmo por profissionais de saúde, a despeito de tanta luta e frustração. Tivemos que colocar ‘máscaras sociais’, mas vivemos um dia a dia tenso e intenso, em que um simples passar por uma cantina com cheiro ruim pode desencadear uma crise irremediável”.

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