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Selma Sueli Silva

No dia 18 de fevereiro é comemorado o Dia Internacional da Síndrome de Asperger. A SA faz parte da neurodiversidade do ser humano. Para a literatura científica, essa Síndrome está dentro do espectro do autismo e é um transtorno de desenvolvimento que afeta a capacidade de se socializar e de se comunicar com eficiência. Ainda assim, a falta de informação preocupa. Como entender que a diferença entre o autismo severo e o autismo leve está na preservação nesse último, da capacidade cognitiva e, na maioria das vezes, da linguagem, mesmo que não funcional?

Eu sou asperger. O sentimento de inadequação e a dificuldade de entender as pessoas à minha volta me fez optar pelo curso de Comunicação Social. Eu era falante, atropelava as palavras, mas ninguém tinha paciência de me ouvir. Além disso, meu vocabulário era considerado pedante e meu discurso, prolixo. Fiz Relações Públicas primeiro, embora desejasse o curso de jornalismo desde sempre. Mas não me considerava ‘madura’ para ter o que o jornalista deveria ter: conhecimento de tudo. Como assim? Era impossível conhecer tudo. Dois anos depois de formada na primeira graduação, me tornava, finalmente, jornalista.

Entretanto, o mercado era restrito e defendia a indicação em detrimento do mérito profissional. Sem contar com a vaidade exacerbada presente na maioria dos jornalistas. Parecia até pré-requisito para essa profissão. Tudo isso me fazia me sentir uma fraude. O que me salvou foi a minha obstinação (que alguns chamam de rigidez de pensamento). Fui devagar, observando, traçando analogias para, finalmente, decodificar o mundo à minha volta. Era preciso conhecer a regra do jogo para jogar. Sem problemas, me lançar ao estudo aprofundado me encantava sob todos os aspectos. Eu já havia escolhido: meu assunto predileto era gente. Queria a todo custo me entender e entender o que me cercava. A primeira grande regra aprendida: quase ninguém deseja ouvir, antes, preferem falar e falar. Ser uma boa ouvinte foi se tornando, aos poucos, minha especialidade.

Como sempre fui detalhista, gravava tudo que me era dito e, aos 14 anos, já dava conselhos a uma vizinha de 30. Mais tarde, já casada e mãe, recebi o diagnóstico tão pesquisado de meu filho: asperger. Foi quando me lancei a esse novo hiperfoco – autismo. Isso tudo culminou com meu diagnóstico, autismo leve, há um ano e meio.  A notícia caiu como uma bomba em meu ambiente de trabalho e para alguns ‘amigos’. Mas para minha família não. Muita coisa passava a fazer sentido e todos puderam, finalmente, entender a Selma Sueli esquentadinha.

De lá para cá, somos, eu e meu filho, ativistas com a missão de dar visibilidade a um assunto ainda desconhecido por muitos. Em meio a crises, limitações no desempenho das atividades diárias como andar de ônibus ou pedir informação na rua, seguimos firmes. É que escolhemos jogar luz na parte que nos torna felizes: bom humor (com piadas que só nós dois entendemos), prazer em descobrir e aprofundar em nossos hiperfocos, apresentar nosso canal no YouTube, Mundo Asperger, além de divulgar nossos livros. Dois livros de meu filho, Victor Mendonça: Outro Olhar – Reflexões de um autista, ensaios e Danielle, Asperger, romance ficcional. E o meu primeiro livro “Minha vida de trás pra frente” onde revisito meu passado e descubro que o autismo esteve sempre lá.

Quanta ironia. Nada de Einsteins ou Pitágoras. Nossa paixão é a comunicação. Eu trabalhei 15 anos numa rádio de projeção nacional, faço vídeos, escrevo, danço. Tudo isso ao lado de meu filho que acumula também, o gosto pelas artes cênicas.

Infelizmente, ainda ouço: “Você era melhor quando não tinha o diagnóstico.” Nesse instante, paro, seguro a mão da pessoa, olho nos olhos e digo. “Sei disso. Antes, eu me esforçava para agradar e me encaixar. Os sorrisos eram de todos e o sofrimento só meu. Quero que me perdoe se não agrado mais o tempo todo. Ser humano é assim. Hoje o sofrimento é um detalhe e a felicidade, um estado de vida.”

Por isso, neste Dia Internacional da Síndrome de Asperger, eu e meu filho reafirmamos nossa missão de nos expor para que a falta de informação não continue magoando pessoas. Afinal, mais informação menos preconceito.

sister

Victor Mendonça

Ana olha para irmã Úrsula com sentimento estranho. Pela primeira vez, ela percebe que não a conhece em nada. Embora elas sejam gêmeas, os pais se separaram logo após o nascimento. Ana foi viver com a mãe, Úrsula foi para a casa do pai. Será que nesse período havia acontecido algo que Ana havia perdido? Ela acreditava que a crueldade nem sempre esteve em Úrsula. Afinal, ninguém era simplesmente mal. Todos que o são têm uma motivação para isso.

Úrsula se casa aos 18 anos. Ana, por outro lado, nunca quis se casar. Ela é uma fascinada pelas artes, em especial, pelo teatro e a dança. Estuda dia e noite, enquanto ajuda a mãe nas tarefas domésticas. Com o tempo, Úrsula e o marido Henrique criam uma empresa de salões de beleza. É o que mercado aponta como mais rentável. Eles não são bons de lidar com a imprensa. Úrsula tem um profundo constrangimento em relação a aparecer em público, embora no fundo sempre deseje além de dinheiro. Ela quer ser vista e, sobretudo, admirada.

Ana pensa ser muito querida pela irmã. As duas são, em diversos pontos, o contrário uma da outra. As aulas de interpretação fizeram muito bem a Ana. Ela se tornou uma jovem desinibida, que sabe se comunicar muito bem. Começa a atuar no teatro e, cada vez que alguém importante vê sua peça, galga melhores papéis. Ainda assim, é difícil para ela se manter financeiramente. Apesar disso, Ana tem o carinho e a admiração de um público crescente.

Úrsula aprende muito de como se portar diante de um público e já não tem grandes constrangimentos ao se assumir como empresária na forma de uma figura pública. Ana traz o negócio da irmã junto a si para a grande mídia. Todas estão aparentemente felizes, mas algo incomoda Úrsula profundamente. A ascensão da carreira da irmã está passando dos limites.

Úrsula vai se revelando à medida que o reconhecimento de Ana aumenta. Mesmo do lado pessoal, uma é muito diferente da outra. Úrsula vive de críticas aos outros e reclamações. Ana é carismática, de maneira natural, e se transforma quando sobe no palco. Há um brilho genuíno em Ana, o que é estranho para alguém que passou dificuldades financeiras e de desarmonia familiar fortes na infância e juventude. Úrsula acha que ela exagera. Afinal, para ela, é impossível alguém com esses traumas tão semelhantes aos que ela passou chegue feliz e bem resolvido à fase adulta.

Úrsula entra numa jornada para denegrir a imagem da irmã. Ana a ama muito; considera Úrsula uma pessoa de dentro de sua casa. Não percebe os sinais. Quando Úrsula é diagnosticada com câncer de mama; Ana é seu suporte e apoio. Como personalidade da mídia, dá visibilidade à causa e conhece várias pessoas com o mesmo sofrimento da irmã. Quando vem a oportunidade de transformar isso num papel de protagonista, ela aceita na hora.

Úrsula, aos poucos, dá sinais de melhora. Mas isso vai e volta, o que preocupa a irmã. Apesar disso, Ana se mantém inteira no trabalho, e o sucesso da personagem cresce. Ela passa a se observar também, por causa da predisposição genética, e descobre que ela própria manifesta a mesma doença. Isso a abala muito. Como cuidar dela e da irmã? Úrsula, no entanto, sente-se incomodada com o sucesso de Ana. Ela vem a público com a revelação bombástica: que Ana na verdade inventou ter câncer como um golpe de marketing. Isso doeu profundamente na irmã. De onde ela havia tirado isso?

O golpe foi muito duro. A cada dia ambas pioravam. Faleceram praticamente juntas, no mesmo dia. A família de Úrsula pode receber um abastado seguro de vida. Do lado de fora do hospital, as pessoas celebravam a obra de Ana. Daquele dia em diante, ela se imortalizava como artista.

Victor Mendonça

– Oi – Maria se aproxima de mim e percebo que ela não parece muito feliz. – Acho que vou perder a minha credibilidade profissional.

– Como assim, Maria? – Você é uma grande psicóloga. Sabe tudo de Teoria da Mente. – consigo soar confiante no tom. Mas, raios, o que diabos é Teoria da Mente? Não importa, o que importa era que ela é muito respeitada no trabalho dela e ponto.

– Ah, é que ser mãe não é fácil. Quem disser o contrário estará mentindo. Mesmo assim, todo mundo sente-se no direito de nos julgar. É como diz a música: “quem não tem teto de vidro que atira a primeira pedraááá”. – Meus ouvidos doem ao som da cantoria.

– Mas, pensa bem, amiga. Poderia ser pior. Ao invés de se especializar em Teoria da Mente, você poderia ser cantora, viu? Nada é tão ruim que não possa piorar. – É, eu e minhas piadinhas em horas inapropriadas. Mas, como dizem, toda brincadeira tem um fundo de verdade. Ainda bem que ela não vive disso. Então, completo, tentando corrigir a má impressão de minha fala anterior: – você faz a diferença na vida de tantas crianças.

– Mas esse é o problema. Não pense que ser mãe é mais fácil para a gente que é profissional. Como vão acreditar numa profissional que lida com a infância e não sabe por limites em seu próprio filho? E isso, apesar dos meus vários títulos.

Ela esbugalha os olhos e chora feito um bebê. Aproveito que ela parece envolta demais em seu próprio pranto e, discretamente, tiro o celular do bolso e digito no google: “teoria da mente”.

Caso percebesse, Maria provavelmente ficaria ofendida de eu ter encontrado esse conteúdo na internet e não no próprio livro dela.

Segundo a Wikipedia, “Teoria da mente é a habilidade de atribuir e representar, em si próprio e nos outros, os estados mentais independentes – crenças, intenções, desejos, conhecimento – e de compreender que os outros possuem crenças, desejos e intenções que são distintas da sua própria.”

Talvez eu esteja com uma séria dificuldade na minha Teoria da Mente. Quer dizer, a mulher está se debulhando em lágrimas e eu não estou mostrando nenhuma compaixão com o sofrimento dela. Será que a Maria atende adultos? Na verdade, estou com medo que ela passe a me analisar como faz com os pacientes dela.

– O que aconteceu? O que você está sentindo? – digo, e logo me arrependo de não ter perguntado algo mais concreto do tipo: ‘no que você está pensando? ’

– Bem… o meu filho, Arthur Lucas, gosta muito de comer pipoca. Mas, que tipo de mãe eu seria se eu deixasse ele só comer isso? Acontece que ele come pipoca depois da aula, e aquilo parece um feitiço, ele quer comer pipoca no almoço, no café da manhã, e no jantar. Então, fiz o que pareceu mais correto: pedi que expulsassem o pipoqueiro de lá.

Quando abro a boca para defender o pobre homem que só estava tentando garantir o próprio sustento (e se ele tiver família? Penso nos pobres e hipotéticos filhos… Pior: E se ele for viúvo?), Maria me interrompe:

– É isso. As pessoas julgam porque não conhecem. Não podem questionar o meu trabalho por causa disso. Obrigado, meu amigo, pelo conselho. – (Que conselho? Eu não disse nada!) – Sem pipoqueiro, não há pipoca. Sem pipoca, não há vício. Eu fiz um bem para a sociedade. – Ela já não está mais chorando. – Como sou grata por ter você em minha vida! Anos de estudo não valem a experiência de um bom diálogo.

Ela sai sem despedir nem nada. Como as pessoas são confusas. Acho que, ao chegar em casa, preciso estudar mais sobre a Teoria da Mente.

 

Já são 54 anos desde que Lucille Ball tornou-se a primeira mulher comediante da televisão. Mas, mesmo se formos além dos risos, Ball é uma pioneira. “I Love Lucy” é uma série lembrada até hoje e isso não é à toa. Imagine nos conservadores anos 50, convencer os patrocinadores a investirem numa atração comandada por uma mulher? Ela tinha que mostrar serviço. E foi o que fez. Daí, inclusive, é que surgiu o formato das sitcons que hoje são tão comuns. Tudo porque a atriz, junto da sua equipe, que contava com o marido Desi Arnaz, conseguiu números de audiência extraordinários para a série. Fico imaginando que ela nem precisava gastar muito para argumentar contra o machismo. Os números estavam ao seu lado. As mulheres, provavelmente, queriam ser representadas, mas vou além disso. O público em geral merece assistir a uma programação de qualidade. Uma programação assim é feita pelo talento das pessoas, sejam homens, sejam mulheres. A porta aberta por Lucille Ball à valorização do talento feminino nunca mais se fechou.

Á medida que o papel da mulher na sociedade foi se modificando, a teledramaturgia estadunidense acompanhou esse processo. Afinal, a arte imita a vida. Os valores que vemos na televisão muitas vezes são relacionados com os que encontramos no nosso dia a dia. É muito bom que nos anos 60 possamos ter tido séries como “A Feiticeira e Jeanne é um Gênio” em horário nobre. Já era uma evolução. Mas, por mais que essas séries sejam amadas até hoje, os valores retratados com relação ao papel da mulher são os mais conservadores. Pelo menos no caso de “A Feiticeira”, em que Elizabeth Montgomery era uma bruxa repleta de poderes. Podia fazer e acontecer o que quisesse. Ou não, porque vivia submissa à vontade do marido. “Jeannie é um Gênio” seguia um viés diferente. A ousadia e determinação da gênia interpretada por Barbara Eden incomodava o público mais moralista. Principalmente quando ela passou a ser vista como exemplo por outras mulheres. Como resultado da pressão, “Jeannie é um Gênio” teve cinco temporadas, contra oito de “A Feiticeira”.
Já na segunda metade dos anos 70, “Mulher Maravilha” colocou uma personagem feminina (interpretada por Lynda Carter) em um patamar inédito: o de uma super-heroína capaz de salvar os Estados Unidos. Mas se há uma série nesse período que mostrou às mulheres que elas também tinham força e poder, é “As Panteras”. As detetives vividas (na primeira temporada) por Farrah Fawcett, Jaclyn Smith e Kate Jackson executavam seu trabalho com mais competência do que os colegas de produção homens retratados pelas produções da época. Ainda assim, nem tudo eram flores. Quem assistiu à série certamente se lembra de Charlie, o chefe que só se revelou no último episódio. Dele, até então, só conhecíamos a voz. Eram palavras bastante reveladoras as escutadas na abertura. Enquanto a inesquecível música tema toca, vemos as três heroínas executando funções que não lhe garantiam o mesmo brilho na sociedade que o talento como detetives. Tudo narrado por Charlie, que afirma tê-las afastado de tudo isso ao contratá-las. Como se mesmo as mulheres mais brilhantes precisassem de uma figura masculina para tirá-las da mediocridade.
Quem vê filmes de terror sabe que, por muito tempo, o papel que coube às mulheres em produções do gênero foi o de donzela em perigo. O roteirista e produtor Joss Whedom percebeu isso e decidiu inverter as coisas. Foi daí que surgiu “Buffy: A Caça-Vampiros”, série que alçou Sarah Michelle Gellar ao patamar de grande estrela nos anos 90. E com a chegada do século 21, mais direitos foram conquistados e as telas de televisão passaram a retratar protagonistas femininas nas mais diversas situações, que vão desde adolescentes envolvidas em uma trama policial (“Pretty Little Liars”) ao de uma mãe alcoólatra tentando reconstruir a vida (“Mom).
Não existe mais um padrão para definir como as mulheres serão retratadas. Eis o grande ganho nas séries estadunidenses. Não apenas porque dá maior variedade e possibilidade de escolha aos espectadores. Principalmente porque deixa de reforças estereótipos como regras a serem seguidas pelo sexo feminino. Chegamos a uma fase em que podemos encontrar representações de mulheres das mais variadas áreas da sociedade. Não muito diferente do que se percebe na vida real, em que as mulheres vêm conquistando direito e espaço.

Victor Mendonça

Ilustração: César Froes

Houve uma época – não faz muito tempo – em que vivíamos num reino encantado. O reino era dividido entre fadas e bruxos. As fadas eram dóceis e sabiam conversar candidamente. Os bruxos eram cruéis em suas palavras, mas gostavam de manter a coerência em tudo que diziam. O grande rei bruxo da região havia feito um pacto com as fadas, e ensinaria as bruxas a agirem como fadas, a parecerem fadas. Em troca, cobrava altas taxas de impostos.

Neste reino, vivia Annabeth. Ela era a rainha das fadas, e ensinava as outras fadas a usarem seu poder. Ela havia feito um pacto com o rei dos bruxos, que ensinaria seu filho Cruello a se tornar uma fada. No entanto, Cruello não era uma fada. Era um bruxo. Cruello vivia em profundo sofrimento por não saber se era uma fada ou se era um bruxo. Annabeth guardava para si o mesmo conflito: como a rainha das fadas poderia dar à luz um bruxo? Annabeth foi até o grande rei bruxo perguntar-lhe porque ela se sentia tão diferente, pois havia conversado com outras fadas que lhe disseram que, por mais que ela tenha se constituído como fada, ela lutava contra o que realmente era. Uma bruxa. Cruello, por ter muito orgulho de sua identidade, estava destinado a provar que Annabeth era uma bruxa, e não uma fada.

Annabeth gostava muito do grande rei bruxo e, por vezes, até se identificava com ele. O grande rei bruxo afirmou categoricamente que as bruxas eram diferentes dos bruxos, mas que as outras fadas não entenderiam isso e tentariam jogar Annabeth no limbo. Ele disse que havia uma missão em descrever o que as bruxas viviam, pois as poções mágicas até aqui eram focadas nos bruxos. Ao ouvir o grande rei bruxo, Cruello anunciou a todo o reino a descoberta. O grande rei bruxo não se sentiu à vontade com isso, e chamou os dois para uma conversa. Como assim, ele havia mudado de ideia? Os bruxos não baseavam-se na coerência? Ele amaldiçoou Annabeth e Cruello para que vivessem um inverno eterno.  O frio matava as bruxas. No entanto, Cruello havia aprendido a realizar a magia das fadas com Annabeth. As fadas transformavam veneno em remédio. E logo, o inverno eterno em que eles foram jogados tornou-se primavera, iluminadas por pétalas de mandara. Todos viveram felizes para sempre, sejam bruxas, sejam fadas.

Victor Mendonça

Translation: Camila Feldberg

I have a medical report for Asperger Syndrome (Autism Spectrum Disorder), and I also have coexistent conditions that affect anxiety and humor. My life has always been marked by huge challenges and grand celebrations, but nothing has gotten close to what I’m living in 2017.

I have started 2017 with the channel “Mundo Asperger” (Asperger World), which I perform with my mother, it is a blast. We were on vacation and resting in João Pessoa. In 2016, I traveled a lot as a speaker from North to South of Brazil. I met amazing people, and I my books “Outro Olhar” and “Danielle, Asperger” were well accepted. We discovered my mother’s diagnosis at last, now with a medical report of autism such as mine. This was a good turning point in our lives.

On the day of my twentieth birthday, I was in São Paulo at the Brazilian head office of BSGI (Brazil Soka Gakkai Internacional, a laic Buddhist organization, which I am associated with) because I had made a statement for the university students division on the day before. I left the city with my seigan promise renewed, for my happiness and of others, and with a project rising, since “Mundo Asperger” had been expanding in an amazing way. This also led me to be a citizen of Belo Horizonte blessed with the “Grande Colar do Mérito Legislativo Municipal”, which was an outcome of the indication of the city councilman Leonardo Mattos because of my activism for people with disabilities.

I was deeply grateful for the turns my life was taking, and for my goal of being happy and inspiring people. But as I grew more mature, activism already wore me out, and exposed me, such a young boy, to the human differences that brought confused logic for an Asperger. More than that, I didn’t want to be stigmatized professionally and personally simply as an autistic.

Living with my mother was becoming impracticable. She was also in autistic crisis because she had just received her diagnosis, and people of the autistic community had questioned it.

Although we explain it many times, a neurotypical will never understand the difficulties of an Asperger on his/her every-day life, nor the importance of a diagnosis, even if it comes during adulthood. Hence the importance of a professional accompaniment for all of those that consider that even if they are happy, they have a stuck life for some reason connected to the very behavior and its impact on society.

But, from that day forward, my mother and I got worse and worse, which ended up in my attempt to self-extermination. Mom, with the help of a fellow Buddhist fireman, Leonardo Moutinho, was crucial to act quickly and save my life. While I went through stomach washing, my shakubuku from Florianópolis, the cartoonist (and also autistic) Rodrigo Tramonte, had just decided his conversion to Buddhism from Nichiren Daishonin. The veteran in Buddhist practices, Silvana Vicente, said that we were nipping the bad karma from the bud. I decided to go on with that heart, though my thoughts were dominated by cognitive distortions (a medical term for thought distortion).

This awful situation led me to move abruptly to my father’s house in Minas Gerais’ countryside. I had weeks marked by unslept nights, by nightmares when I could finally fall asleep, by desperate attempts to ask for the help of friends and family that only frustrated me, more because of my expectations rather than because of something effective that they could do, and the rumination that made me dwell on thoughts during every second I was awake. Besides that, there was the fear of not controlling my own impulsivity, that could lead me to drastic consequences, but this fear did not become true.

I started to question my mother’s attitudes when she wanted to protect me from excessive exposure, this brought me a lot of confusion and stress because until that moment she had been my greatest hero. I kept on chanting in front of Gohonzon (the scroll paper of Nichiren Buddhism) consecrated at my father’s house.

With therapy and daimoku (Buddhist chanting – Nam Myoho Renge Kyo), my discourse was no longer tearful or mournful. It was indeed analytical and critical, but there was hope of creating a better future here and now. I continued to talk a lot, but I was getting calmer. I wrote a four-page article for magazine Inclusive.com about the metaphors on terror movies and their relation to the real fears of society, which had a very positive repercussion. My current psychiatrist had said that I had to exercise my intense brain activity. I was satisfied with my work and more confident about how I want to project myself professionally from now on.

I started talking to my mother again in a peaceful and pleasant manner, and I determined that the same way she is an example for me, I will be for her. I also managed to revolutionize the relationship with my stepmother that had been complicated once.

In one of the moments that I was worse, I had a quick, but very productive talk, with João Luiz, a friend from DMJ (Divisão Masculina de Jovens, or Young Male Division, from Soka Gakkai), who quoted Nichirendai Daishonin: “Although I and my disciples may encounter various difficulties, if we do not harbour doubts in our hearts, we will as a matter of course attain Buddhahood. Do not have doubts simply because heaven does not lend you protection. Do not be discouraged because you do not enjoy an easy and secure existence in this life. This is what I have taught my disciples morning and evening, and yet they begin to harbor doubts and abandon their faith. Foolish men are likely to forget the promises they have made when the crucial moment comes”.

I said that I had recently read this part of Gosho. During my stay at my father’s house, I created a Word document to which I transcribed parts of Goshos (letters from Buddha Nichiren to his disciples, besides orientations from the president of Gakkai, Daisaku Ikeda). These writings were important to fortify my decision to create hope when it appears not to exist.

These events made me recover the essence of my Buddhist practice, which is to achieve illumination (Buddhahood) in the current form, in the place where I am, and with the work that I am developing, and with this have inner peace, that allows displaying the best of me. And in the way that it is possible for me, it is also for me to be an instrument for other people in search of illumination and full happiness.

My mother, my grandmother and my father are great examples of victorious people for me, and I hope to be an even greater example when I have their age. Today I feel stronger not only with my mission as a communicator or activist for people with disabilities but, above all, as a humanist in every single area of my life.

I keep going with “Mundo Asperger” and I have elaborated several new projects that have been received with enthusiasm. “Mundo Asperger” also won a new agency – Calacata – and an outstanding chairwoman, Deborah Arimura.

I understood why my grandmother started to practice Buddhism in 1981, with the goal of revolutionizing the family karma. I thank the Soka Gakkai family for the daimoku and the welcoming. I thank Ikeda Sensei, my life master, for bringing to Brazil the philosophy I consider to be the foundation of my victory. I thank everyone who accompanies me and cheers for me somehow.

I thank my psychiatrist, Dr. Edson Aquino Brandão, and my psychologist, Júlia Dias, for helping me reveal the best in me. Dr. Edson was referred by Dr. Giovana Mol, my mother’s psychiatrist, and I thank her for aiding in giving a new sense for our lives. I also give thanks to the scholars who studied autism and neurodiversity, such as Dr. Raquel Del Monde, my great reference in this area.

I thank family and educators that marked my life – especially Maurício Guilherme Silva Jr. – and also my closest friends. I thank my Art teacher, Rachel Romano.

Finally, a special thank you for the rock star (and Buddhist) Courtney Love, an example for me, whose soul I believe I can read beyond what is only superficial.

About the internet’s persecutions to which every public person is exposed, I proved in practice Ikeda sensei’s speech: “Even though someone tries to change the truth, the time for it to be proved will certainly come, even better, we must prove the truth at any cost. Similarly, even if evil is disguised in every way, it will be unmasked someday. Then it will find its ruin and vanish”. This also applies to the evil inside us.

I also understood the writings of Nichiren Daishonin: “Those who believe in the Lotus Sutra are as if in winter, but winter always turns to spring. Never, from ancient times on, has anyone seen or heard of winter turning back to autumn. Nor have we ever heard of a believer in the Lotus Sutra who turned into an ordinary person. The sutra reads, ‘If there are those who hear the Law, then not a one will fail to attain Buddhahood'”.

I end my story with a quote from Nichiren: “Suffer what there is to suffer, enjoy what there is to enjoy. Regard both suffering and joy as facts of life, and continue chanting Nam-Myoho-Renge-Kyo, no matter what happens. How could this be anything other than the boundless joy of the Law? Strengthen your power of faith more than ever”.

 

Gratitude!

Victor Mendonça

Quando eu estava no meio de minha adolescência, vivia com tanto medo e insegurança que a simples ideia de sair de casa para fazer vestibular me colocava numa masmorra de ansiedade. Aos poucos, havia construído a educação inclusiva no colégio em que estudava, com firmeza mas sem imposição. Os profissionais que me cercavam precisavam estar conscientes da fobia social que me prejudicava. Com isso, ganhei mais confiança. Ainda assim, era um desafio. Passei muito mal nos dias próximos ao meu vestibular. Vomitava muito e meu nariz sangrava bastante.
Talvez por também ser autista, embora não soubéssemos à época, minha mãe nunca deu conta de me ensinar ou me acompanhar em algumas coisas, como andar de ônibus, receber visitas em casa ou sair para encontrar outras pessoas. Consciente dessa dificuldade, que inclui ser muito ansiosa e ter dificuldade para localizar os lugares, para evitar que eu me prejudicasse, ela pediu a ajuda. Assim, uma prima que eu adoro iria me levar ao local que era a prova. Rebecca, essa minha prima, foi quem me ajudou a ter tranquilidade para lidar com todo o estresse. Escolhi fazer o vestibular tradicional porque embora com o mesmo grau de dificuldade do ENEM, esse vestibular tinha menos questões e textos menores, o que não confundia a minha cabeça (eu também tenho TDAH). Tive ledora e fiz a prova em sala separada.
A escolha do curso era algo que eu não fazia ideia até pouco tempo antes do vestibular. A confiança que queria fazer jornalismo não por ter pais jornalistas, mas porque gostava de escrever e acompanhar notícias, determinou minha decisão. Ter procurado perceber minhas habilidades facilitou essa escolha. Nós, autistas, temos medo de não sermos independentes e, às vezes, não recebemos o estímulo necessário para desenvolver essas habilidades (talvez porque, muitas vezes, elas fujam do padrão esperado para a idade).
O curso de jornalismo mostrou-se muito mais do que fazer uma boa redação. Eu ainda não sei se quero trabalhar com jornalismo puro, mas sem dúvida é um curso que me ajuda a trabalhar uma série de habilidades que eu sempre quis desenvolver, inclusive sociais. Minha mãe dizia que era muito tímida e escolheu essa profissão que a fez mascarar essa timidez. Eu também fiquei mais sociável e despertei para habilidades de comunicação que iam além da escrita, com uma fala muito mais articulada. Isso me deixou mais feliz para interagir com pessoas até em minha vida pessoal.
Pela primeira vez, me senti parte de um grupo e isso ocorreu na faculdade. Eu até tinha amigos no ensino médio, alguns que mantenho contato até hoje, mas ainda assim me sentia diferente e deslocado. Agora, na universidade, em que continuo falando abertamente sobre minha condição, sinto que sou membro do meu grupo de amigos, independente de ter a Síndrome de Asperger. Essa sensação é muito boa. A interação na faculdade é importante. Existem muitos trabalhos em grupo e essa afinidade contribui para o sucesso. A turma, como um todo, também representa um grupo muito mais heterogêneo, o que facilita a todos aprenderem com a diversidade. Todos nós saímos ganhando.
O aluno autista tem uma série de direitos legais que não devem ser ignorados e acionados quando houver necessidade. Um deles é adaptação no plano de ensino. O conteúdo cobrado é o mesmo, mas a forma tem de ser diferente porque o nosso cérebro tem funcionamento fora do padrão e o autista se desgasta muito mais para realizar as mesmas atividades que os colegas neurotípicos. Essa exaustão ocorre, em especial, porque despendemos um grande esforço para decodificar as informações e estímulos. As pessoas não autistas não conhecem essa sensação, então é comum aos educadores que tentem extrair mais um pouco de esforço do autista do que ele dá conta. Isso deve ser conversado e negociado. No meu caso, tento combinar com os professores para fazer menos trabalhos valendo mais pontos e as provas também são adaptadas.
Outro fator importante é a mediadora. Eu não tive esse acompanhamento antes da faculdade, porém as dificuldades de comunicação, que vão muito além da ausência ou não de fala, estão no nível da interpretação, me fizeram solicitar esse auxílio. Isso aconteceu quando fui para o terceiro período do curso, pois era como se os professores e outros alunos falassem em uma língua diferente da minha. Além disso, o curso de jornalismo foi transferido para um campus muito maior e a noção de espaço é problemática para mim.
A mediadora não é alguém que tira a autonomia do aluno. Ela é uma espécie de tradutora/decodificadora que dá condições ao autista de realizar as mesmas tarefas dos colegas. Do contrário, haverá muito desgaste, aumentando a possibilidade de crises com queda no desempenho devido às incompreensões do que é passado de forma genérica para a turma.
Eu estou muito satisfeito com o curso que faço, gosto de muitos colegas e professores, mas é importante lembrar que a inclusão escolar continua sendo uma construção diária em que não podemos ligar o piloto automático. A coordenação, o núcleo de orientação psicopedagógica e mesmo os professores erram, muitas vezes, por suas certezas absolutas, ou por ainda desconhecerem a realidade do aluno autista. Quando há uma pressão para que não seja cumprido algum direito, é preciso que estejamos atentos para nos posicionarmos, pois isso pode gerar um dano muito grave na vida do autista. Acho maravilhoso o respaldo da lei, mas não quero nunca estudar numa escola que não me queira. Com o diálogo, sinto que todos, na faculdade, têm aprendido muito comigo. E eu também tenho aprendido muito com eles.

  1. Courtney

Victor Mendonça

Tu estavas lá, Courtney Love. Na assembleia de discípulos do sagrado Pico da Águia. Tu estavas lá, quando o Buda Shakyamuni chamou-te e a todos os outros que lá estávamos. Juraste a tua felicidade e a de toda a humanidade. Juraste propagar a Lei Mística a todos e que tua vida seria prova real do poder ilimitado dessa Lei.

Tu renasceste, então. Numa Era de desespero. Durante os Últimos Dias da Lei. Uma Era que, imagino, tenha te feito questionar por tantas e tantas vezes se tu estavas lá, no Pico da Águia. Mas estavas. Teu juramento ainda estava valendo. Tu percebeste que entre nascimento e morte havia um mar de sofrimentos, mas que havia um barco para atravessá-lo. Chamaste esse barco de “Mystic Law” (Lei Mística ou “nam myoho renge kyo”).

Tua vida nunca foi fácil. Eras uma criança pequena, mas teu pai já te dava ácido. Tu tinhas um sofrimento inexplicável. Ainda na infância, veio o diagnóstico de autismo. Tua mãe não aguentava tuas crises. Deixou-te com amigos da família, com pessoas que te abusaram. Tu passaste por reformatórios, usaste drogas, ficaste revoltada com a vida.

Courtney, tu já estavas quase desistindo quando conheceste a Lei, enquanto trabalhavas como stripper, no Alaska. Tu creditas ao “nam myoho renge kyo” a criação e ascensão da tua banda Hole. O sucesso bateu na tua porta. Quando tu te apaixonaste e te casaste com o Kurt, parecia um conto de fadas do rock. O líder de uma das bandas de rock de maior sucesso. Tu quase deves ter te esquecido de que ainda estamos nos Últimas Dias da Lei.

Tu foste muito atacada, Courtney. Por teu comportamento, por ser uma mulher que desafiava a noção de como uma mulher deve agir. Os palavrões e as drogas faziam o mesmo mal físico aos teus colegas homens, mas aos olhos do público eram diferentes. Então, Kurt morreu e te deixou com uma filha pequena para cuidar. Sofreste muito com o suicídio do teu grande amor.

Tu és talentosa, Courtney. Faz teu mantra, compõe novas musicas, transforma-te em atriz. Foi o que tu fizeste. Profissionalmente, tu te tornaste mais bem-sucedida ainda. A Revolução Humana estava caminhando, mas ainda havia obstáculos e maldades. O vício é realmente algo terrível.

Quanto maior o obstáculo, mais significativa é a vitória, não é mesmo, Courtney? Aos 50 anos, novos projetos nas áreas de música, moda e atuação surgem. Tua carreira se expande novamente. Olha para o espelho, minha amiga, me fala o que vê. A mesma mulher de antes, com as mesmas características diferenciadas, apresenta uma nova sabedoria. É visível uma mudança interior muito forte. É a Revolução Humana.

Tu nasceste para vencer, resistir e inspirar, Courtney. Conseguir tudo isso em meio a problemas tão expressivos mostra que a vale a pena, para todo mundo, lutar para superar os obstáculos e maldades. Que os fatores externos não influenciam nessa batalha, para ninguém. Se fosse fácil, a vitória não teria o mesmo valor.

Então… tu estavas no Pico da Águia, Courtney. Tu estavas lá. E ao cumprir o teu juramento, ajudaste a inspirar aquele que dedica esta crônica a ti. Obrigado!

Victor Mendonça

Para os representantes das ideologias pacifistas, é fácil afirmar, com convicção, que não há nada de positivo, para a  sociedade, em filmes do gênero terror, cuja principal finalidade é assustar ou amedrontar. Muitos vão alardear dados sobre o aumento dos assassinatos por conta dos filmes slasher – aqueles que têm um assassino mascarado perseguindo um grupo de adolescentes.

Parafraseando Kevin Williamson no roteiro do filme “Pânico”, de 1996, esse tipo de produção era geralmente interpretada por atores por volta dos 30 anos, dentre os quais a jovem com seios exorbitantes, fanática por sexo, seu namorado bonitão e bobão e, claro, a mocinha virgem que seria a única a sobreviver à matança. Mas as coisas mudaram. Não há mais mérito naquelas mocinhas, as regras sociais se tornam menos puritanas, e não soa mais correto premiar uma jovem mulher de corpo escultural por se manter longe das tentações do sexo e do álcool. A humanidade não inventa nada de que não precise, seja para fins altruístas ou mesquinhos. Os espectadores precisam do cinema para lhes provocar o medo, dar asas à imaginação. Afinal, o medo é também uma reação de defesa.

Embora os filmes de terror sejam metafóricos e dirigidos aos anseios e características de uma época, não aconteceu assim com “It A Coisa” (2017). Baseado em obra de Stephen King, uma figura recorrente em adaptações hollywoodianas da literatura de horror ou suspense (vide “O Iluminado”, de Stanley Kubrick, e “Cemitério Maldito”, de Mary Lambert). O longa-metragem, de acordo com Pam Moody, presidente da Associação Mundial de Palhaços, fez vários profissionais perderem o emprego.

“It” incrementou uma onda de coulrofobia, o que reacende o debate infindável, desde Orson Welles, sobre a arte imitando a vida e a vida imitando a arte, mas que em termos práticos para o futuro da arte deve ser tão útil ser remoído quando a decisão de ir ao cinema assistir a um novo filme de terror estilo mockumentary ou rever, via Netflix ou plataforma similar, “A Bruxa de Blair”, que fez muita gente achar que estava assistindo a um documentário de verdade no final da década de 90. Um filme que realmente mexeu com o imaginário e as convenções do público há quase 20 anos, mas, que hoje, não é essencialmente diferente de “Atividade Paranormal” ou qualquer uma de suas continuações.

Pode se cobrar originalidade de um estilo que há muito se repete em remakes, reboots, plágios, paródias, auto-homenagens e uma lista infindável de sequências que nada mais fazem do que repetir a fórmula bem-sucedida do original. Os títulos de muitos desses filmes mostram que isso aconteceu com a maior parte deles. É provável que em duas décadas já tenha acontecido com todos eles.

Existe algo confortável em sentir-se em um campo previsível, mesmo que a previsibilidade consista em prever exatamente o momento em que o compositor da trilha sonora irá usar um artifício para assustar a plateia, que perceberá que não se trata do monstro ou do assassino, mas de um pobre e inofensivo gato preto que escolheu justamente aquele momento para cruzar com o caminho da protagonista da obra, que parece tão incapaz de resolver os próprios problemas quanto o dócil felino.

É necessário observar a ótica machista, dentro e fora de Hollywood, que não poupa os cineastas, espectadores, roteiristas, críticos, atores ou atrizes. É a mesma lógica que garante o papel de protagonista a uma atriz por ser jovem e bela, e isso independe de colecionar premiações em Cannes ou o Oscar, ou de ser uma figura conhecida em realities da MTV com pouca experiência no ramo da atuação.

O que realmente interessa aos diretores de elencos é que ela tenha uma figura capaz de chamar a atenção do público, seja ele movido pelos hormônios ou pelo desejo alimentado todos os dias em frente à televisão de ter um corpo como o daquela jovem estrela. Tanto que o termo scream queen tornou-se conhecido após John Carpenter dirigir Jamie Lee Curtis em “Halloween”, em 1978.

Foi-se o tempo em que “O Exorcista” era um filme proibido que os jovens mostravam a seus irmãos mais novos com o intuito de assustá-los, contrariando a ordem dos pais de ficar longe daquela fita VHS. Cenas como a do vômito de sopa de ervilha da menina possuída pelo demônio hoje chegam a ser desdenhadas até por cristãos menos fervorosos, que se valem da falta de recursos nos anos 70 como argumento para validar a crítica a este e outros clássicos do cinema.

O papel da garota rendeu a Linda Blair uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante, aos 14 anos, e comentários sobre seu suposto enlouquecimento pós-filmagem.

A partir do início dos anos 2000, a relação entre Igreja e sociedade passa por rápidas transformações, e vale mais a pena gastar o dinheiro para assistir “Premonição” (ou suas continuações de qualidade duvidosa), que apesar de não ser um grande filme, ao menos traz consigo certa novidade conceitual. Agora, quem persegue os personagens é o destino ou, em outras palavras, a própria morte, sem intermediários.

A ideia de assassino mascarado havia se desgastado com a franquia “Sexta-Feira 13” e similares nos anos 80. “Pânico” ressuscitou e reestruturou o estilo, mas isso há mais de 20 anos. E já se completam seis anos desde que o último filme da franquia foi lançado, antes do falecimento do diretor Wes Craven, em agosto de 2015. “Pânico 4” reúne os veteranos da cinessérie com astros de seriados teens e propicia um interessante debate sobre o que se seguiu nos filmes de terror após o encerramento da “trilogia” Pânico em 2000.

Há quem defenda que “O Silêncio dos Inocentes” seja um autêntico filme de terror, enquanto outros apimentarão a discussão sobre o fato de que Anthony Hopkins, com seu canibal Hannibal Lecter, jamais se enquadrará em um filme desta categoria. Afinal, “O Silêncio dos Inocentes” é uma das únicas três produções na história a faturar, de uma só vez, os cinco principais prêmios da Academia (As outras são “Um estranho no ninho” e “Aconteceu naquela noite”).

Há também os apreciadores de um diretor que sabe o que faz com um baixo orçamento e que, a partir do que é trash, consegue levar a plateia ao riso e ao susto, às vezes até simultaneamente. É o caso de Sam Raimi com “A Morte do Demônio” e demais filmes da série “Evil Dead”, antes de se envolver na direção de blockbusters e de retornar as raízes com “Arraste-me Para o Inferno”, agora com um orçamento maior e a alcunha de diretor de “O Homem-Aranha”.

Claro, há também quem se amedronte com um suspense policial de Hitchcock e que passe madrugadas em claro após uma simples cena da banheira, ou com a sugestão de “Psicose”.

O público já se assustou com um assassino que persegue os jovens durante o sono, descobriu sensações de angústia no terror espanhol, se amedrontou com as meninas dos filmes de horror japoneses, ou ao menos se divertiu com os remakes estadunidenses estrelados por atrizes como Naomi Watts e Sarah Michelle Gellar.

Até crianças já se mostraram capazes de deixar a plateia de cabelos em pé, desde que vejam gente morta, possuída pelo demônio ou cria dele. Mas o que é capaz de assustar quem já se acostumou com tudo isso em 2017, num contexto em que até crianças se encontram cada vez mais vulneráveis a desenvolver transtornos de ansiedade, que as levam a reações de luta ou fuga pela falsa percepção do perigo?

Nada faz sucesso à toa, mesmo em épocas tenebrosas para quem está acostumado ao apuro artístico mais elevado. Houve um tempo em que Beethoven era popular, houve um tempo em que Michael Jackson e Madonna eram as principais referências musicais para parte de uma geração.

Vivemos em uma época que, ao mesmo tempo em que aparenta apresentar ao público uma pluralidade cultural dividida por nichos, também caminha para a evidente pasteurização. Neste mundo de aparências, a questão é onde encontrar a essência, a verdade. A maior probabilidade de encontrar-se a verdade sobre um fato é perguntá-la para alguma espécie de fanático por ideias, filosofias ou religiões.

Outros se mostrarão mais hesitantes para atestar a veracidade de um fato. Para essa parcela de estudiosos, que inclui o filósofo e estudioso de semiótica Charles Sanders Peirce (Cambridge, Inglaterra, * 1839 / Milford, Pensilvânia, EUA, + 1914), o que seria um fato senão a interpretação de um indivíduo sobre determinado fenômeno? Há em comum nas pessoas, independentemente do nível cultural, o poder de conferir sentido ao que quer que seja, mesmo que não haja justificativa do ponto de vista científico.

Não se pode apenas criticar a ascensão de qualquer gênero musical ou cinematográfico sem entender que, por trás das multidões que o aplaudem, há raízes sociológicas que remontam ao início da arte.

Por mais que hoje as obras artísticas se tornem meros produtos voltados ao entretenimento das massas e ao lucro, a arte genuína resiste e segue provocando reflexões críticas, inclusive sobre os acontecimentos sociais mais impactantes, inclusive aqueles dos quais fugimos por medo ou conveniência.

“It – A Coisa” foi adaptado como minissérie em 1990, com Tim Curry no papel do vilão Pennywise, mas somente agora, sob a direção do argentino Andy Muschietti, consegue cativar o grande público.

A obra é muito mais que um filme sobre um palhaço que mal aparece durante a projeção. É uma produção sobre as fobias humanas, o medo irracional que alimentamos num círculo vicioso.

Os seres humanos precisam ser lembrados de que precisam sentir medo. Paradoxalmente, é isso o que os está adoecendo.

“It – A Coisa” vem num bom momento, calculado por quem mais entende deste mercado de Hollywood, os próprios produtores Hollywoodianos, e deve revolucionar o filão como muitos anteriormente o fizeram, desde o curta-metragem “Le Manuir du Diable”, em 1896.

Obra do pioneiro ator e diretor Georges Mèliès, com duração de dois minutos, o filme foi considerado o primeiro do gênero terror da história.

De qualquer forma, as próximas continuações de “It” estão garantidas e o novo filme da já lucrativa franquia tem lançamento previsto para 2019.

Texto originalmente publicado na revista Inclusive.com