A Metamorfose do Medo

A Metamorfose do Medo

Victor Mendonça

Para os representantes das ideologias pacifistas, é fácil afirmar, com convicção, que não há nada de positivo, para a  sociedade, em filmes do gênero terror, cuja principal finalidade é assustar ou amedrontar. Muitos vão alardear dados sobre o aumento dos assassinatos por conta dos filmes slasher – aqueles que têm um assassino mascarado perseguindo um grupo de adolescentes.

Parafraseando Kevin Williamson no roteiro do filme “Pânico”, de 1996, esse tipo de produção era geralmente interpretada por atores por volta dos 30 anos, dentre os quais a jovem com seios exorbitantes, fanática por sexo, seu namorado bonitão e bobão e, claro, a mocinha virgem que seria a única a sobreviver à matança. Mas as coisas mudaram. Não há mais mérito naquelas mocinhas, as regras sociais se tornam menos puritanas, e não soa mais correto premiar uma jovem mulher de corpo escultural por se manter longe das tentações do sexo e do álcool. A humanidade não inventa nada de que não precise, seja para fins altruístas ou mesquinhos. Os espectadores precisam do cinema para lhes provocar o medo, dar asas à imaginação. Afinal, o medo é também uma reação de defesa.

Embora os filmes de terror sejam metafóricos e dirigidos aos anseios e características de uma época, não aconteceu assim com “It A Coisa” (2017). Baseado em obra de Stephen King, uma figura recorrente em adaptações hollywoodianas da literatura de horror ou suspense (vide “O Iluminado”, de Stanley Kubrick, e “Cemitério Maldito”, de Mary Lambert). O longa-metragem, de acordo com Pam Moody, presidente da Associação Mundial de Palhaços, fez vários profissionais perderem o emprego.

“It” incrementou uma onda de coulrofobia, o que reacende o debate infindável, desde Orson Welles, sobre a arte imitando a vida e a vida imitando a arte, mas que em termos práticos para o futuro da arte deve ser tão útil ser remoído quando a decisão de ir ao cinema assistir a um novo filme de terror estilo mockumentary ou rever, via Netflix ou plataforma similar, “A Bruxa de Blair”, que fez muita gente achar que estava assistindo a um documentário de verdade no final da década de 90. Um filme que realmente mexeu com o imaginário e as convenções do público há quase 20 anos, mas, que hoje, não é essencialmente diferente de “Atividade Paranormal” ou qualquer uma de suas continuações.

Pode se cobrar originalidade de um estilo que há muito se repete em remakes, reboots, plágios, paródias, auto-homenagens e uma lista infindável de sequências que nada mais fazem do que repetir a fórmula bem-sucedida do original. Os títulos de muitos desses filmes mostram que isso aconteceu com a maior parte deles. É provável que em duas décadas já tenha acontecido com todos eles.

Existe algo confortável em sentir-se em um campo previsível, mesmo que a previsibilidade consista em prever exatamente o momento em que o compositor da trilha sonora irá usar um artifício para assustar a plateia, que perceberá que não se trata do monstro ou do assassino, mas de um pobre e inofensivo gato preto que escolheu justamente aquele momento para cruzar com o caminho da protagonista da obra, que parece tão incapaz de resolver os próprios problemas quanto o dócil felino.

É necessário observar a ótica machista, dentro e fora de Hollywood, que não poupa os cineastas, espectadores, roteiristas, críticos, atores ou atrizes. É a mesma lógica que garante o papel de protagonista a uma atriz por ser jovem e bela, e isso independe de colecionar premiações em Cannes ou o Oscar, ou de ser uma figura conhecida em realities da MTV com pouca experiência no ramo da atuação.

O que realmente interessa aos diretores de elencos é que ela tenha uma figura capaz de chamar a atenção do público, seja ele movido pelos hormônios ou pelo desejo alimentado todos os dias em frente à televisão de ter um corpo como o daquela jovem estrela. Tanto que o termo scream queen tornou-se conhecido após John Carpenter dirigir Jamie Lee Curtis em “Halloween”, em 1978.

Foi-se o tempo em que “O Exorcista” era um filme proibido que os jovens mostravam a seus irmãos mais novos com o intuito de assustá-los, contrariando a ordem dos pais de ficar longe daquela fita VHS. Cenas como a do vômito de sopa de ervilha da menina possuída pelo demônio hoje chegam a ser desdenhadas até por cristãos menos fervorosos, que se valem da falta de recursos nos anos 70 como argumento para validar a crítica a este e outros clássicos do cinema.

O papel da garota rendeu a Linda Blair uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante, aos 14 anos, e comentários sobre seu suposto enlouquecimento pós-filmagem.

A partir do início dos anos 2000, a relação entre Igreja e sociedade passa por rápidas transformações, e vale mais a pena gastar o dinheiro para assistir “Premonição” (ou suas continuações de qualidade duvidosa), que apesar de não ser um grande filme, ao menos traz consigo certa novidade conceitual. Agora, quem persegue os personagens é o destino ou, em outras palavras, a própria morte, sem intermediários.

A ideia de assassino mascarado havia se desgastado com a franquia “Sexta-Feira 13” e similares nos anos 80. “Pânico” ressuscitou e reestruturou o estilo, mas isso há mais de 20 anos. E já se completam seis anos desde que o último filme da franquia foi lançado, antes do falecimento do diretor Wes Craven, em agosto de 2015. “Pânico 4” reúne os veteranos da cinessérie com astros de seriados teens e propicia um interessante debate sobre o que se seguiu nos filmes de terror após o encerramento da “trilogia” Pânico em 2000.

Há quem defenda que “O Silêncio dos Inocentes” seja um autêntico filme de terror, enquanto outros apimentarão a discussão sobre o fato de que Anthony Hopkins, com seu canibal Hannibal Lecter, jamais se enquadrará em um filme desta categoria. Afinal, “O Silêncio dos Inocentes” é uma das únicas três produções na história a faturar, de uma só vez, os cinco principais prêmios da Academia (As outras são “Um estranho no ninho” e “Aconteceu naquela noite”).

Há também os apreciadores de um diretor que sabe o que faz com um baixo orçamento e que, a partir do que é trash, consegue levar a plateia ao riso e ao susto, às vezes até simultaneamente. É o caso de Sam Raimi com “A Morte do Demônio” e demais filmes da série “Evil Dead”, antes de se envolver na direção de blockbusters e de retornar as raízes com “Arraste-me Para o Inferno”, agora com um orçamento maior e a alcunha de diretor de “O Homem-Aranha”.

Claro, há também quem se amedronte com um suspense policial de Hitchcock e que passe madrugadas em claro após uma simples cena da banheira, ou com a sugestão de “Psicose”.

O público já se assustou com um assassino que persegue os jovens durante o sono, descobriu sensações de angústia no terror espanhol, se amedrontou com as meninas dos filmes de horror japoneses, ou ao menos se divertiu com os remakes estadunidenses estrelados por atrizes como Naomi Watts e Sarah Michelle Gellar.

Até crianças já se mostraram capazes de deixar a plateia de cabelos em pé, desde que vejam gente morta, possuída pelo demônio ou cria dele. Mas o que é capaz de assustar quem já se acostumou com tudo isso em 2017, num contexto em que até crianças se encontram cada vez mais vulneráveis a desenvolver transtornos de ansiedade, que as levam a reações de luta ou fuga pela falsa percepção do perigo?

Nada faz sucesso à toa, mesmo em épocas tenebrosas para quem está acostumado ao apuro artístico mais elevado. Houve um tempo em que Beethoven era popular, houve um tempo em que Michael Jackson e Madonna eram as principais referências musicais para parte de uma geração.

Vivemos em uma época que, ao mesmo tempo em que aparenta apresentar ao público uma pluralidade cultural dividida por nichos, também caminha para a evidente pasteurização. Neste mundo de aparências, a questão é onde encontrar a essência, a verdade. A maior probabilidade de encontrar-se a verdade sobre um fato é perguntá-la para alguma espécie de fanático por ideias, filosofias ou religiões.

Outros se mostrarão mais hesitantes para atestar a veracidade de um fato. Para essa parcela de estudiosos, que inclui o filósofo e estudioso de semiótica Charles Sanders Peirce (Cambridge, Inglaterra, * 1839 / Milford, Pensilvânia, EUA, + 1914), o que seria um fato senão a interpretação de um indivíduo sobre determinado fenômeno? Há em comum nas pessoas, independentemente do nível cultural, o poder de conferir sentido ao que quer que seja, mesmo que não haja justificativa do ponto de vista científico.

Não se pode apenas criticar a ascensão de qualquer gênero musical ou cinematográfico sem entender que, por trás das multidões que o aplaudem, há raízes sociológicas que remontam ao início da arte.

Por mais que hoje as obras artísticas se tornem meros produtos voltados ao entretenimento das massas e ao lucro, a arte genuína resiste e segue provocando reflexões críticas, inclusive sobre os acontecimentos sociais mais impactantes, inclusive aqueles dos quais fugimos por medo ou conveniência.

“It – A Coisa” foi adaptado como minissérie em 1990, com Tim Curry no papel do vilão Pennywise, mas somente agora, sob a direção do argentino Andy Muschietti, consegue cativar o grande público.

A obra é muito mais que um filme sobre um palhaço que mal aparece durante a projeção. É uma produção sobre as fobias humanas, o medo irracional que alimentamos num círculo vicioso.

Os seres humanos precisam ser lembrados de que precisam sentir medo. Paradoxalmente, é isso o que os está adoecendo.

“It – A Coisa” vem num bom momento, calculado por quem mais entende deste mercado de Hollywood, os próprios produtores Hollywoodianos, e deve revolucionar o filão como muitos anteriormente o fizeram, desde o curta-metragem “Le Manuir du Diable”, em 1896.

Obra do pioneiro ator e diretor Georges Mèliès, com duração de dois minutos, o filme foi considerado o primeiro do gênero terror da história.

De qualquer forma, as próximas continuações de “It” estão garantidas e o novo filme da já lucrativa franquia tem lançamento previsto para 2019.

Texto originalmente publicado na revista Inclusive.com

No Comments

Post A Comment