Autismo no feminino

Autismo no feminino

Elas e o Autismo

Condição se manifesta de forma diferente em mulheres

Victor Mendonça

“Gabriela é comunicativa até demais. Ela gosta de conversar desde muito pequena”, diz a decoradora de interiores Beth Martins, com uma gargalhada, ao lembrar que a filha, a estudante de gastronomia Gabriela Martins, sempre foi falante. E realmente! Durante a tarde em que passamos juntos, a jovem de 28 anos percorre, com boa fala e segurança, diversos assuntos. O que há de inusitado em tudo é que a garota foi diagnosticada, na adolescência, com um Transtorno do Espectro Autista (TEA), chamado de Síndrome de Asperger, que costuma ser ligado à dificuldade na socialização, e, pelo senso comum, à timidez. Porém, não é o caso de Gabriela, que adora estar com pessoas e se socializar. “É como descarrego minha energia”, confessa.

Timidez, também, é o que não se imagina quando se vê, em atuação, a jornalista Selma Sueli Silva, tão alegre e ponderada em suas opiniões como radialista e youtuber. Selma também é autista. Contudo, como alguém com esse diagnóstico, que afeta a comunicação e a interação social, pode se tornar uma comunicadora de sucesso? Durante o processo de descoberta médica, Selma passou por rigorosa análise de toda sua vida. E descobriu a mulher por trás das estratégias montadas para diminuir o sofrimento. “Percebi que ninguém me conhecia de fato. Olhar para si é muito difícil”, conta.

De acordo com a psiquiatra e pediatra Raquel Del Monde, muitas mulheres com autismo de alto funcionamento apresentam maior facilidade em compreender aspectos-chave da interação social e desenvolvem habilidade de copiar comportamentos socialmente desejáveis, ao observar outras pessoas. Selma sabe que é admirada por muitas pessoas, e que também admira muita gente. Gosta do ser humano e faz questão de deixar isso claro, para não ser mal interpretada, em seu jeito, por seus amigos.

Afinal, ela não sabe receber em casa, nem vai a encontros e festas. Em 15 anos de trabalho na Rádio Itatiaia, foi a um encontro de fim de ano e a um aniversário da emissora. “Foi estressante e fiquei esgotada”, analisa a comunicadora, que, hoje, trabalha mais diretamente com o ativismo por pessoas autistas e aos projetos com o filho.

Homens e mulheres

Segundo Raquel Del Monde, os critérios para diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista são válidos para homens e mulheres. Porém, em função da maior capacidade das mulheres em camuflar suas dificuldades, o profissional encarregado da avaliação precisa ter conhecimento profundo do quadro clínico, e se mostrar sensível às nuances e sutilezas das formas de apresentação do Transtorno.

Tanto homens quanto mulheres autistas desenvolvem estratégias para lidar com as situações sociais a partir da lógica, concordando com seus pares neurotípicos, os quais desenvolvem, intuitivamente, as habilidades necessárias. No entanto, resultados obtidos em grupos de treinamento de habilidades sociais, envolvendo homens e mulheres no espectro, sugerem que as mulheres aprendem os conceitos com maior rapidez e são mais hábeis em disfarçar expressões faciais, corporais, aspectos da fala e da troca social.

Ainda para a médica, existem evidências de que o funcionamento do cérebro feminino difere do masculino sob diversos aspectos. Estudos genéticos apontam variações que podem ser significativas já no desenvolvimento embrionário do sistema nervoso central de meninos e meninas. As mulheres, em geral, tendem a verbalizar mais seus pensamentos e sentimentos, e são bastante atentas às reações das pessoas à sua volta. Alguns fatores culturais também influenciam no desenvolvimento da comunicação social.

Os grupos de meninas oferecem mais oportunidades de brincadeiras simbólicas (com bonecas, por exemplo) e de modelagem (amigas que “corrigem” determinado comportamento ou dão “dicas” de como agir nas diversas situações). “Além disso, a inabilidade social das meninas é muitas vezes interpretada como timidez, passividade ou inocência, traços mais aceitos como ‘femininos’ na sociedade”, conclui Raquel Del Monde.

Assim como Gabriela Martins, cujos interesses se voltam às artes e às Ciências Humanas (“Gosto de coisas que poderiam existir, mas não existem”), meninas no espectro desenvolvem interesse pelo mundo da fantasia (princesas, Barbies, pôneis) ou por animais, temas nada estranhos ao universo das outras meninas. Para alguns examinadores, inclusive, esse interesse é interpretado como bom desenvolvimento dos recursos da imaginação e contribui com a exclusão do diagnóstico.

O esforço para camuflar as dificuldades e agir “como esperado” pode ser gigantesco. As situações enfrentadas na rotina diária demandam, muitas vezes, um nível de alerta constante, grande empenho para se adequar aos diálogos e interações, além de alto nível de autocontrole para suprimir comportamentos considerados inadequados. Ao longo do tempo, a tensão contínua pode ocasionar quadros de ansiedade e depressão, que são, na verdade, secundários ao problema real. Muitas mulheres procuram ajuda médica ou psicológica apenas quando apresentam essas questões, lembra a psiquiatra.

Selma sempre fez um grande esforço para se adequar a situações que envolviam muita gente, na escola e em encontros de família. Era um esforço imenso relacionar-se com as pessoas. E entender o outro. Nem sempre o que eles diziam fazia sentido para ela, e vice-versa. Para não se sentir tão exposta, passou a observar quem julgava ser mais feliz e adequado que ela, e “copiava” o jeito de ser que considerava poder protegê-la da exposição. “Percebi que todos lidavam melhor com crianças ‘boazinhas’ e tentei ser o que os adultos esperavam de mim”, conta a jornalista, que, com o tempo, dividiu-se em duas: a Sueli ficava em casa; a Selma ia para a escola. “Os dois mundos não podiam se misturar. Há pouco tempo é que não me sinto mais a Selma e a Sueli. Hoje, sou Selma Sueli Silva”.

Elas são célebres…

Courtney Love – A viúva de Kurt Cobain, e ex-vocalista da banda Hole, foi diagnosticada como autista aos nove anos. Courtney, que também é atriz premiada, tem carreira marcada por sucesso profissional, comportamentos polêmicos e relacionamentos complicados. Hoje, aos 52 anos, ela encontrou o equilíbrio no budismo e na yoga, além de ser mais voltada à atuação.

 Daryl Hannah – A atriz foi diagnosticada com autismo aos três anos. Os médicos sugeriram que ela fosse medicada e internada. A mãe de Daryl não acatou a ideia. A filha se tornou atriz de grande sucesso, ao atuar em filmes como Splash – Uma sereia em minha vida e na cinessérie Kill Bill, de Quentin Tarantino. Hoje ela é uma das estrelas da série “Sense 9”, do Netflix.

 Susan Boyle – Diagnosticada com autismo após os 50 anos, Susan Boyle tornou-se famosa por meio de um popular reality show de calouros britânico. Ela era vista como esquisita, até que sua voz impressionou os jurados e o vídeo com sua participação viralizou na internet. Menos de dez anos depois, ela já é uma das cantoras mais bem-sucedidas do Reino Unido.

Filmes

 Temple Grandin – O filme conta a história real de uma mulher autista que demorou a falar e, hoje, é PhD em Zootecnia e professora da Universidade do Colorado. Ela até já foi considerada uma das pessoas mais influentes do mundo pela revista Time. O filme venceu cinco prêmios Emmy, o Oscar da televisão, nas categorias direcionadas a minisséries e telefilmes.

 The BridgeNa série policial, Diane Kruger interpreta Sonya, uma detetive autista. Julgamentos de esquisita e dificuldades de relacionamento são constantes na vida da personagem. Para ela, certo e errado são conceitos bem claros. A sinceridade faz parte de seu dia a dia. Sonya canaliza a maior parte de sua energia no trabalho, algo comum em pessoas no espectro na vida real.

 Jane procura um namorado Nesta comédia romântica, Jane é uma garota sonhadora, com Síndrome de Asperger. Ela quer namorar, mas tem dificuldades de socialização e comunicação afetiva. Com apoio da irmã, Jane procura o par ideal, para que comece a namorar.

 Protagonista autista em Malhação

A nova temporada de MalhaçãoViva à diferença tem, entre as protagonistas, a autista Benê, interpretada por Daphne Bozaski. A personagem foge do estereótipo geralmente ligado a garotos com Síndrome de Asperger na teledramaturgia. Ela é uma adolescente com desafios comuns a jovens autistas, como pensamento literal e dificuldade de ler sinais corporais e intenções das pessoas.

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